Num contexto em que as crises sanitárias, as alterações climáticas e os desafios sociais impõem respostas rápidas e esclarecidas, a confiança dada à expertise científica parece vacilar. A crescente contestação da palavra dos especialistas não se assemelha mais a um ceticismo isolado, mas insere-se numa dinâmica mais ampla de desconfiança geral. Essa desconfiança, longe de ser superficial, fragiliza as decisões coletivas ao minar a base mesmo sobre a qual se apoiam as políticas públicas. Ela também expõe a sociedade à proliferação de fake news e a uma desinformação deletéria, que prosperam nas dúvidas públicas e colocam em causa a autoridade científica. Diante dessa crise de confiança, torna-se crucial explorar a fundo as raízes dessa contestação da expertise científica, analisar seus impactos concretos e considerar estratégias capazes de aproximar novamente a ciência e a sociedade.
- 1 O papel central da expertise científica na sociedade moderna
- 2 Os efeitos nocivos da desconfiança na expertise científica sobre a saúde e o ambiente
- 3 O papel ambivalente dos meios de comunicação na crise de confiança científica
- 4 Estratégias sustentáveis para reconstruir a confiança na expertise científica
O papel central da expertise científica na sociedade moderna
A expertise científica constitui hoje um pilar essencial para a elaboração das políticas públicas e a gestão dos desafios globais. Ela fornece os conhecimentos necessários para orientar as decisões, seja em matéria de saúde, ambiente ou desenvolvimento tecnológico. Esse papel acentuou-se com a multiplicação das crises sanitárias e ambientais dos últimos anos. Por exemplo, as recomendações de vacinação, as normas sobre a qualidade do ar ou ainda a luta contra as mudanças climáticas apoiam-se em avaliações rigorosas conduzidas por especialistas da área.
Apesar dessa importância indiscutível, a expertise científica enfrenta um paradoxo. Enquanto a produção de conhecimentos nunca foi tão intensa nem acessível — com um aumento exponencial das publicações, dos dados abertos e dos debates públicos —, a confiança do grande público nos especialistas está em declínio em vários países. Essa situação explica-se sobretudo pela complexidade crescente dos problemas estudados, que afasta os cidadãos dos processos de compreensão e gera uma sensação de opacidade. A expertise é por vezes percebida como uma autoridade distante, desconectada das realidades concretas, o que alimenta a tentação do ceticismo.
Observa-se assim um contraste claro nos níveis de confiança segundo as disciplinas científicas:
| Domínio | Nível médio de confiança na Europa (%) |
|---|---|
| Medicina e saúde | 72 |
| Climatologia | 58 |
| Epidemiologia | 51 |
| Ciências sociais | 38 |
Esses dados demonstram que a confiança na ciência não é homogênea nem estável, e que alguns domínios suscitam mais desconfiança do que outros. Essa disparidade tem implicações importantes para a forma como os cidadãos percebem as recomendações e decisões públicas. É essencial lembrar que, se a autoridade científica é contestada, os próprios fundamentos da governança democrática e coletiva ficam fragilizados.
Os efeitos nocivos da desconfiança na expertise científica sobre a saúde e o ambiente
A contestação da expertise científica não se limita a um debate de ideias; ela tem consequências tangíveis e muitas vezes dramáticas. No domínio da saúde pública, a crescente desconfiança favoreceu a recusa ou o atraso na adoção de medidas essenciais, como a vacinação, o que contribuiu diretamente para a ressurgência de doenças evitáveis.
Por exemplo, na Europa, vários países observaram um aumento do sarampo, doença que havia sido amplamente controlada graças à vacinação. Esse ressurgimento resulta em grande parte do ceticismo contra os especialistas e das campanhas de desinformação orquestradas nas redes sociais. A recusa vacinal aumenta a carga sanitária e impõe custos muito elevados ao sistema de saúde.
Por outro lado, a negação das mudanças climáticas, aprofundada pela contestação dos dados científicos, gera um atraso persistente na implementação das políticas ecológicas indispensáveis. O bloqueio de projetos de energias renováveis por grupos hostis às ciências do clima é um exemplo claro de como a desconfiança impede a transição energética e agrava os riscos ambientais.
Além desses aspectos concretos, a desconfiança fragmenta também a sociedade. Quando a dúvida pública instala-se sobre bases contestadas, a verdade científica se vê fragmentada em narrativas concorrentes. Essa situação cria um «campo de batalha» onde se opõem diferentes visões da realidade, frequentemente polarizadas, e onde a derrota do diálogo racional favorece o surgimento de ideologias extremas.
Concretamente, a desconfiança na expertise científica alimentada pela desconfiança tem os seguintes impactos :
- Multiplicação das epidemias evitáveis devido à falta de adesão às campanhas sanitárias.
- Atrasos nas políticas públicas de combate às mudanças climáticas e perda de oportunidades para a inovação ecológica.
- Desagregação da coesão social pelo surgimento de grupos que rejeitam a ciência e compartilham suas próprias «verdades».
- Enfraquecimento da gestão democrática pela ruptura dos referenciais comuns sobre os quais se baseiam as decisões coletivas.
Os danos causados são, portanto, multidimensionais, e exigem uma resposta combinada dos atores da ciência, dos meios de comunicação e dos poderes públicos para restaurar um clima de confiança compartilhada.
Os modos de difusão da desinformação e seu impacto na dúvida pública
No coração da crise de confiança que atravessa a ciência, a desinformação desempenha um papel motor. Esta última explora mecanismos de manipulação frequentemente sutis para fragilizar a credibilidade dos especialistas e semear a confusão.
Diversas técnicas sobressaem:
- A falsa equivalência: apresentar uma opinião minoritária como igual ao consenso científico, dando assim uma ilusão de igualdade no debate.
- O apelo à conspiração: sugerir que os cientistas são corruptos ou manipulados por interesses privados, minando dessa forma a autoridade científica.
- A descontextualização: extrair resultados de estudos para que digam o contrário ou para ampliar seu alcance de forma enganosa.
- A amplificação emocional: jogar com os medos, a raiva ou o choque para contornar o raciocínio crítico dos indivíduos.
Esses métodos são reforçados pelo poder das redes sociais, cujos algoritmos incentivam a viralidade dos conteúdos sensacionalistas ou ansiosos. Um estudo recente do MIT demonstrou que as fake news se propagam seis vezes mais rápido que as informações verificadas nessas plataformas.
Essa amplificação digital intensifica a contestação da expertise científica e cria um contexto em que a comunicação científica se torna um desafio maior. A gestão dessa dinâmica complexa interpela, portanto, prioritariamente os meios de comunicação tradicionais, que devem conciliar rigor e acessibilidade.
O papel ambivalente dos meios de comunicação na crise de confiança científica
Os meios de comunicação ocupam uma posição-chave na forma como a expertise científica é percebida pelo grande público. Sua missão é dupla: facilitar a compreensão das descobertas e debates científicos, evitando ao mesmo tempo contribuir para a confusão ou a desinformação.
Infelizmente, algumas escolhas editoriais alimentam a desconfiança. O sensacionalismo, a busca por audiência e a simplificação excessiva podem transformar as nuances científicas em afirmações categóricas que não refletem a complexidade das pesquisas. Assim, apresentar discussões internas à comunidade científica como conflitos irreconciliáveis alimenta a dúvida.
Além disso, conceder o mesmo espaço a especialistas reconhecidos e a intervenientes marginais dá uma falsa impressão de equilíbrio, confundindo a hierarquia das provas e reforçando a confusão. As manchetes chamativas sobre resultados preliminares não validados também participam da erosão da confiança.
Diante desses desafios, impõe-se uma responsabilidade editorial acrescida:
- Formar os jornalistas para a leitura crítica dos estudos e o fact-checking científico.
- Contextualizar os resultados explicando os métodos, os limites e as incertezas inerentes à pesquisa.
- Diferenciar claramente os níveis de evidência e evitar atalhos que possam induzir ao erro.
Um jornalismo científico rigoroso continua a ser uma das melhores barreiras contra a desinformação e as fake news. Contudo, essa tarefa não pode recair unicamente sobre os meios de comunicação. É necessário imaginar ações globais que coloquem em sinergia as instituições científicas, os educadores e os cidadãos.
Estratégias sustentáveis para reconstruir a confiança na expertise científica
Para responder de forma duradoura à contestação da expertise científica, vários alavancas devem ser ativadas simultaneamente para restaurar um clima de confiança baseado na transparência e na pedagogia.
Primeiramente, a educação desempenha um papel fundamental. Iniciar as gerações jovens numa cultura do pensamento crítico e na metodologia científica é indispensável para desenvolver cidadãos capazes de analisar e interpretar a informação por si mesmos. O ensino dos vieses cognitivos e das técnicas de manipulação da informação deve ser integrado nos programas escolares para preparar melhor os cidadãos para os desafios do mundo digital.
Em seguida, a transparência das instituições científicas é essencial. Comunicar claramente os métodos utilizados, as fontes de financiamento, as incertezas dos estudos ou ainda a evolução dos consensos permite mostrar que a ciência é um processo dinâmico e rigoroso. Tal honestidade intelectual reforça a credibilidade e combate a imagem de uma ciência fixa e dogmática.
Por fim, aproximar os pesquisadores dos cidadãos por meio de iniciativas de mediação científica contribui para humanizar a ciência. Os cafés científicos, oficinas participativas, dias de portas abertas nos laboratórios ou colaborações com associações locais permitem demonstrar que a ciência é acessível, transparente e enraizada nas preocupações quotidianas dos indivíduos.
Aqui está um resumo das ações-chave para valorizar novamente a confiança na autoridade científica:
- Desenvolver uma educação para o pensamento crítico desde a mais tenra idade.
- Instalar formatos mediáticos de divulgação rigorosa e transparente.
- Garantir a transparência dos processos científicos e dos financiamentos.
- Favorecer a participação cidadã na produção e na difusão do conhecimento.
Apenas uma mobilização coletiva e coordenada permitirá combater eficazmente a desinformação e a desconfiança, e portanto preservar a capacidade das sociedades de enfrentar juntos os desafios complexos que enfrentam.